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Dr. Marcio C. Mancini

Chefe do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica da Disciplina de Endocrinologia e Metabologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP); Chefe da Liga de Obesidade Infantil do HC-FMUSP; Pesquisador do Laboratório de Investigações Médicas LIM-18 da FMUSP
Graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP); Especialização em Endocrinologia (Residência Médica) pelo HC-FMUSP; Doutorado em Endocrinologia pela da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP); Membro Titulado da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM);
Ex-Presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) em duas gestões

1. Quais são os sintomas do diabetes?

O diabetes pode ser assintomático, já que a glicose no sangue em jejum pode estar acima de 125 mg/dl sem que isso provoque nenhuma alteração durante muitos anos e venha a ser descoberto ocasionalmente num exame de sangue de rotina. O sintoma pode ser inespecífico, como mudança de humor, nervosismo, fraqueza, ou infecções mais frequentes, furúnculos, alterações visuais (visão embaçada), náuseas e vômitos. O mais típico, porém (embora nem sempre seja o mais frequente), são as chamadas polis = poliúria (vontade de urinar várias vezes por dia), polidipsia (sede excessiva), polifagia (muita fome), acompanhadas de perda de peso e fadiga.

2. Qual a relação entre circunferência abdominal e diabetes?

A circunferência abdominal elevada (acima de 90 cm no homem e 80 cm na mulher) indica acúmulo de gordura visceral (nas camadas profundas do abdômen, envolvendo os órgãos internos), um tipo de gordura que é mais prejudicial à saúde do que a gordura subcutânea (que fica embaixo da pele perifericamente nos membros e nos quadris) e que está correlacionada ao desenvolvimento de resistência à ação da insulina, hormônio responsável pelo aproveitamento da glicose no organismo. Esse tipo de tecido adiposo, o visceral, produz substâncias inflamatórias e leva a desenvolvimento de doença gordurosa no fígado, também chamada de esteatose hepática, fatores que sabidamente estão relacionados a piora da glicemia e diabetes tipo 2.

3. Pessoas com peso normal, mas com pais diabéticos, têm maior probabilidade de desenvolver a diabetes?

O diabetes tipo 2 tem bases genéticas fortes, mas depende de fatores ambientais. Isso significa que se o indivíduo mantiver hábitos saudáveis de atividade física e alimentação, ele pode nunca vir a desenvolver a doença, embora o histórico familiar de diabetes tipo 2 seja um dos fatores de risco mais fortes para se apresentar a doença. Vale ressaltar que o peso normal separadamente não é o fator mais importante, já que indivíduos geneticamente predispostos com Índice de Massa Corpórea (IMC) normal (18,5 – 24,9 kg/m²), mas que são sedentários, ingerem muitos carboidratos e gorduras e que apresentam a circunferência abdominal aumentada, estão sob risco aumentado.

4. O que é Síndrome Metabólica e quais são os fatores de risco?

No adulto, a associação entre obesidade e doença coronariana é bem estabelecida. Essa associação levou à criação do termo "síndrome metabólica" para definir aqueles indivíduos com mais chance de desenvolver eventos cardiovasculares devido a uma base fisiopatológica comum entre os componentes da síndrome, possivelmente orquestrada pela obesidade visceral, da qual já falei. Dentre os fatores incluídos na síndrome metabólica estão a obesidade visceral, a dislipidemia aterogênica (triglicérides aumentados acima de 150 mg/dl e HDL colesterol baixo menor que 50 na mulher e 40 mg/dl no homem), a hipertensão (maior que 130/90 mmHg) e a glicemia de jejum alterada (glicemia >99 mg/dl). Com isso, foram definidos critérios que possibilitassem a identificação dos indivíduos para que fossem tomadas atitudes preventivas diminuindo a chance de desenvolvimento de desfechos cardiovasculares. O ganho de peso na região do abdômen é o principal fator de risco tanto para homens quanto para mulheres. Nestas, isso é mais comum depois da menopausa. A gordura abdominal profunda (visceral) leva a aumento dos níveis de insulina, que acaba alterando todos os exames comentados acima.

5. O consumo de adoçante aumenta a vontade de comer doces?

Não há nenhuma pesquisa em seres humanos que mostre que o uso de adoçantes aumente a vontade de comer doces. Ao contrário, apesar dos estudos serem de prazo relativamente curto e pouco numerosos, a substituição de bebidas adoçadas com açúcar por bebidas com adoçante parece trazer benefícios em termos de perda de peso, pois o uso do adoçante como substituto do açúcar contribui para a menor ingestão de calorias.

6. Ainda existe uma grande preocupação em relação ao consumo do aspartame. O que os estudos mostram sobre esta substância? Existe alguma restrição quanto ao seu consumo?

Vários relatos e histórias de casos propagados pela Internet supostamente atribuídos ao aspartame levaram a uma vasta revisão sistemática de seus estudos pela agência regulatória europeia de alimentos, que está disponível no sítio eletrônico http://www.efsa.europa.eu/en/supporting/doc/1641.pdf. Em resumo, os dados de exposição, demonstram segurança e/ou ausência de exposição em estudos de função cerebral, alergia e intolerância, carcinogenicidade, aspectos metabólicos e diabetes. Ou seja, o aspartame é seguro. A margem de segurança de uso é grande, mesmo quando consideramos grupos de alto consumo, como crianças diabéticas. Ele pode ser usado por crianças e por gestantes, sendo somente restritos aos fenilcetonúricos (devido à presença do aminoácido fenilalanina em sua molécula) que são diagnosticados no teste do pezinho no berçário.